quarta-feira, 25 de março de 2009

Guerra Urbana no Rio

É, amigos, a guerra urbana no Rio de Janeiro continua......Leia este artigo da Lucia Hipólito.


Civilização ou Barbárie
A batalha entre forças policiais e bandidos que se espalhou por mais de quatro bairros da Zona Sul do Rio desde domingo, dia 22, é mais um episódio que se repete com dolorosa frequência nas megalópoles brasileiras.

A situação supera o mero problema de segurança pública e passa a ser um problema de estágio civilizatório.

Estaremos todos regredindo à barbárie?

Cada vez que uma situação dessas nos assusta, nos martiriza, as pessoas de bem são tragadas pela barbárie e regridem um pouco mais a cada dia.

Em suma, não são apenas os bandidos que são bárbaros. Nós também corremos sério risco de caminhar a passos acelerados em direção à barbárie.

É assustador, mas nem um pouco surpreendente. É o resultado esperado do persistente processo de “desconstituição” do Estado, que vem acontecendo, e não é de hoje, no Brasil, e particularmente nas megalópoles como Rio e São Paulo.

Há séculos, o que se conhece como Estado Moderno vem se constituindo a partir da extensão da soberania sobre vastos aspectos da vida das nações.

Assim, a soberania sobre o território consolida-se gradativamente a partir da presença do poder público ocupando todos os pontos do país.

Outro elemento constitutivo importante é o monopólio do uso legítimo da força, ou seja, grupos privados deixam de reprimir e oprimir sob motivações igualmente privadas e se subordinam às forças do Estado, que passa assim, a deter o monopólio do uso legítimo da violência.

Um terceiro e relevante aspecto constitutivo do Estado Moderno diz respeito à justiça, que também passa a ser exercida pelo Estado, na medida em que a lei subordina tudo e todos, e a única ordem jurídica reconhecida é aquela vinculada ao Estado.

Não há mais justiça privada, mas aquela patrocinada e exercida pelos órgãos do Estado.

Muito bem. Se estes três elementos são importantes fatores constitutivos do Estado Moderno, é perfeitamente possível classificar o processo por que passa o Brasil como de “desconstituição” do Estado.

Senão, vejamos. A soberania sobre o território já foi ferida de morte, porque há vastos territórios onde o poder público não consegue penetrar.

E por poder público entenda-se o agente de saúde, a ambulância, o caminhão de lixo, o carro de bombeiros, o recenseador do IBGE, o carteiro etc., não apenas a polícia.

Na maioria das vezes, estes agentes do Estado só conseguem ter acesso a certos locais depois de solicitar permissão ao “protetor” do lugar, em geral um traficante ou miliciano.

Pois o poder público simplesmente abandonou essas áreas e marginalizou suas populações, praticamente empurrando-as para os braços do crime organizado.

Já o monopólio sobre o uso legítimo da força tem sido sistematicamente desrespeitado por ricos, classe média e pobres, indiferentemente.

Os ricos contratam seguranças particulares (mas não conseguem evitar os sequestros), a classe média contrata seguranças para suas ruas e condomínios (porém não consegue evitar os assaltos), e agora os pobres começaram a receber a “proteção” de milícias, grupos de policiais, bombeiros e ex-policiais, que expulsam os traficantes de comunidades carentes e passam a extorquir a população local.

Isto tudo porque a polícia (isto é, o Estado) não protege ninguém.

Finalmente, a justiça tem sido igualmente privatizada, subtraindo soberania ao poder público. A justiça privada (dos traficantes, das elites, das milícias, da polícia) é sumária e rápida.

Espancamentos, assassinatos, ajustes de contas, tortura, “queimas de arquivo” frequentam corriqueiramente as páginas dos jornais.

Tudo isso acontece sob as barbas do governo, à luz do dia. A reação das autoridades varia entre a resignação, a indignação hipócrita e a total indiferença.

Enquanto isto, a população que paga seus impostos em dia e dá um duro danado para criar seus filhos fica desamparada, órfã, sem uma palavra de conforto e de esperança.

Será que “eles” venceram? Não podemos nos conformar com isso.


Extraído daqui.

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Commentários:
Sonia,
Eu estive em Copacabana no domingo para visitar minha sogra que mora numa rua 'aparentemente' tranquila daquele bairro.
A insegurança que sentimos no Rio é geral, de ponta a ponta e as providências são mínimas.
Meu marido esteve ano passado à trabalho por sua empresa na Colômbia e voltou de lá muito bem impressionado com o país, suas belezas e o modo seguro que estão vivendo depois daquele inferno que passaram com os traficantes de lá.
É claro que tem vigilância por todo lado e vc não pode circular depois de determinada hora, a polícia e cães farejadores estão por toda a parte, mas o cidadão consegue viver melhor do que aqui neste país.
Acho que o Governo Federal tinha que fazer como lá, pelo menos nestes dois estados, Rio e SP, onde a coisa é galopante.
Sinto tantas saudades do meu Rio de antes, onde éramos alegres e soltos, sentávamos do lado de fora das casas e papeávamos até altas horas!
Mas, sinceramente, não vejo muita saída, pois o que temos para nos 'proteger' é uma polícia viciada e corrompida e políticos que só pensam no enriquecimento próprio e não tem olhos para o povo.
Triste país o nosso!
abs carioca
Postado por Blogger Beth/Lilás : 25 de mar de 2009 20:49:00  
Beth,
Sinto-me muitas vezes paralisada - também sinto uma nostalgia incontida do meu Rio de outrora.
Você conhece aquela música linda escrita pelo Chico Anísio e interpretada pela Alcione? É como eu gostaria de viver no Rio de Janeiro.
Vou ver se acho para colocar no blog.
Beijos,
Postado por Blogger Sonia H. : 25 de mar de 2009 21:26:00  

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