sábado, 7 de março de 2009

Cartas

O post da Celia sobre sua profissão me inspirou a escrever hoje sobre a minha paixão por cartas, o ato de escrevê-las, recebê-las e lê-las. Pois é. Falar de cartas quando hoje se tem e-mail, google talk, skype, e tantos outros meios de comunicação instantânea parece me levar para o mundo do "era uma vez, numa terra muito distante..."
Um dia desses arrumando meus papéis, encontrei uma carta por mim escrita para uma amiga de primário - fiquei fascinada com a minha descoberta: um rascunho de uma carta escrita para uma amiguinha dizendo que estava com muitas saudades dela e não via a hora das aulas começarem para nos encontrarmos novamente. Eu devia ter uns 11 anos.
Na adolescência, tive diversos 'pen pals' ou 'pen friends' (correspondentes) de vários cantos do mundo. Era interessante e prazeroso trocarmos informações sobre nossos países e nossas vidas. E ainda aprendia e aprimorava o meu inglês. Nos aniversários e no Natal trocávamos presentes e cartões de felicitações e postais.
Algumas dessas amizades foram interrompidas por razões inexplicáveis. Outras felizmente perduram até hoje e já se vão pelo menos três décadas.
Um acontecimento muito triste foi quando um dia recebi a carta da mãe de uma amiga (pen friend) da Índia. O nome dela era Sanjivani. Nesta carta, sua mãe contava-me a notícia que Sanjivani havia falecido num acidente de trem. Uma moça nova como eu. Devia ter 19 anos no máximo. Nossa, o meu mundo desabou naquele dia. Eu chorei muito e as pessoas ao meu redor não entendiam a razão para tanta tristeza, afinal, eu nunca a tinha visto pessoalmente... Mas a nossa troca de cartas criou um elo tão forte para mim que era como se tivéssemos nos encontrado várias vezes, como se sempre tivéssemos sido amigas. Eu nunca esqueci da Sanjivani nem daquela carta triste que recebi.
Infelizmente as cartas, os cartões de Natal e de aniversário foram ficando mais escassos por conta da facilidade e rapidez dos e-mails. O amigo/a faz aniversário e nós logo enviamos um e-card... e no Natal idem. Eu ainda envio alguns cartões de Natal através dos Correios. Gosto de manter a tradição. Mas é interessante perceber que aqui no Brasil, e pelo menos nos Correios próximo de casa, não há mais longas filas durante o período natalino como era antigamente.
O nome do carteiro que entregava as cartas na minha época de adolescência era Ricardo e ele já me conhecia, pois alguns amigos escreviam o meu endereço de forma incorreta e ele decifrava tudo e sempre chegava dizendo: "Essa carta deve ser para você, o endereço está todo errado". Eu na época morava em Jacarepaguá, um bairro no Rio de Janeiro, e muitos escreviam tudo, menos o nome correto. Às vezes era o número trocado, algum algarismo faltando, mas na sabedoria daquele carteiro, ele conseguia decifrar os destinos corretos daquelas correspondências. Depois, com o Niels, o Ricardo passou a ser ainda mais aguardado, pois ele via a felicidade estampada no meu rosto quando me entregava as cartas provenientes da terra dos moinhos. Telefonar era caríssimo... e nós escrevíamos muitas cartas um para o outro. Tenho certeza que o Ricardo gostava do que fazia. Hoje, infelizmente não conheço o carteiro que entrega as cartas onde moro atualmente, pois na verdade, eles mudam com muita freqüência, e as cartas minguaram com o tempo, tanto de minha parte quanto dos outros. Como dizia Cazuza, 'o tempo não pára', e os e-mails fazem jus a este tempo de velocidade exorbitante. O que continua chegando às residências pontualmente são as contas, não é mesmo ....
Também, na literatura, muitos escritores mantinham este hábito saudável da troca de cartas e muitas delas hoje são documentos históricos importantes, pois relatam momentos da história do Brasil e aspectos de suas vidas que hoje são muitas vezes objetos de estudos acadêmicos. Clarice Lispector, Cecília Meireles, Carlos Drumond de Andrade e tantos outros grandes ícones de nossa literatura possuem diversas cartas publicadas em livros.
Atualmente estou relendo um livro que muito me fascina e que também há um filme baseado nele. É uma linda história de amizade de mais de 20 anos entre uma americana apaixonada por livros e um livreiro da Marks & Co que ficava na Charing Cross Road, número 84. Desta troca de cartas, nasceu uma longa amizade. Mas não contarei o resto, pois quem tiver interesse, valerá muito a pena ler o livro e/ou ver o filme. Aqui está um site legal (em inglês) sobre esta livraria e a história imortalizada no livro. Nas minhas férias, fiz questão de passar por lá, mesmo sabendo que agora existe um restaurante no local onde era a livraria.
Parabéns, Célia, pelo seu trabalho e obrigada pela inspiração!

Marcadores: ,

Commentários:

Postar um comentário